[Análise] The Midnight Gospel

“Muito mais que um Hora de Aventura para gente grande”

Lembro de uma vez enquanto assistia a um episódio da animação “Hora de Aventura” mencionar que “se uma animação infanto-juvenil podia ser tão alucinógena e cheia de camadas, como seria algo do gênero voltado para o público adulto?“. Não imaginaria que anos mais tarde seu criador, Pendleton Ward junto com Duncan Trussell ousariam quebrar essa barreira com o inusitado “The Midnight Gospel” (2020).

A minissérie em oito episódios para maiores (18 anos) lançada pela Netflix acompanha as desventuras de Clancy, que se utilizando de um simulador de realidades, entrevista os mais diversos tipos de seres para a gravação de seu spacecast (um tipo de podcast interestelar) que carrega o título da série. Enquanto Clancy conduz suas entrevistas, toda sorte de bizarrice e aleatoriedade (ou não) acontecem de pano de fundo, chegando a perturbar ao espectador mais desavisado, afinal, mesmo tendo um visual aparentemente infantil, a animação não mede esforços em apresentar um conteúdo louco, violento, sexual e mesmo incompreensível, que em alguns momentos nos lembra a antigas animações europeias como “Yellow Submarine“, “Planeta Fantástico” ou “The Wall“.

Isso se deve por Ward ser um grande fã do “The Duncan Trussell Family Hour“, podcast que dentre tantos assuntos trata sobre morte, meditação, filosofia, drogas ou espiritualidade. Revelou numa entrevista que o ouvia enquanto desenvolvia “Hora de Aventura” e partir disso surgiu a ideia de mesclar podcast e animação. Como o próprio Ward mencionou, “O podcast de Ducan é uma linda forma de arte e eu queria desenha-lo. Criar um visual Suculento e apimentado para que as pessoas vejam algo enquanto ouvem conversas tão incríveis“.

E de fato é isso que ocorre. Temos uma história que acontece em tela através de uma narrativa (a princípio) bizarra e non-sense e ao mesmo tempo é desenvolvido um diálogo, que (a princípio) não necessariamente corresponde a narrativa da história. É nesse ponto que a produção torna-se espetacular. Inicialmente somos levados a crer que não existe qualquer relação entre o que vemos e ouvimos, porém, somos apresentados de maneira muito sútil a essa importante conexão dentre ambos já no primeiro episódio.

Como dito anteriormente, os temas das entrevistas sempre giram em torno de assuntos existencialistas e algo recorrente em todas elas são as diversas formas de “estar no momento presente“, objetivo principal das práticas de meditação. Logo de cara somos apresentados ao conceito de mindfulness ou “atenção plena“, que nada mais é do que uma forma de manter foco no agora, enquanto aceita-se os pensamentos, sentimentos, sensações, deixando de lado distrações e pensamentos externos, assim podendo sentir e viver plenamente o momento presente. A partir dessa premissa, podemos enxergar a série como um grande exercício de atenção.

De fato é isso que a animação nos apresenta, um turbilhão de situações acontecendo no entorno dos personagens, das mais simples as mais absurdas, enquanto as entrevistas seguem ininterruptas, focadas no assunto. Dessa forma o espectador é convidado a fazer o mesmo, a estar nesse “momento presente” e só assim conseguir acompanhar plenamente aos raciocínios dos diálogos como também toda a sorte de eventos que ocorrem na narrativa. No decorrer da série os assuntos vão se tornando cada vez mais existenciais e profundos e a relação entre o que vemos em tela e ouvimos começa a fazer algum (se não todo) sentido. Mas será mesmo? Ou será que após o exercício de cada episódio passamos a trabalhar melhor essa atenção e as coisas se tornam mais claras para nós?

Vale salientar que diversos trechos das entrevistas são tiradas diretamente de episódios do “The Duncan Trussell Family Hour“, inclusive em alguns momentos podemos ouvir o entrevistador ser chamado de Duncan ao invés de Clancy. Essa divisão é inclusive completamente posta de lado no episódio mais incrível, profundo e tocante de todos, quando Duncan entrevista ninguém menos que sua própria mãe.

No fim das contas não vejo “The Midnight Gospel” como uma série, mas como uma experiência fantástica, uma “trip lisérgica” e pessoal para dentro de si, de forma que não recomendo assisti-la em maratona. Cada episódio merece ser visto e maturado com calma, um por vez. Certamente visitarei aquelas realidades novamente, em algum momento. Até ficarei aqui passando “óleo verde de cabeça de lanterna” em meu simulador e manterei os sapatos organizados na prateleira.

Nota: 9,0/10

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