[Análise] Shippados

Bem-humorada e realista, a primeira temporada de Shippados, nova série do GloboPlay, consegue encontrar o fofo no bizarro

Depois de mal-sucedidas tentativas de encontrar o cômico na fantasia em O Dentista Mascarado e Vade Retro, os autores Alexandre Machado e Fernanda Young retornam à formula da crônica urbana com doses de humor negro que sabem fazer muito bem, vista na excepcional Os Normais, reinventada muito bem em Os Aspones e Separação?! e com menos potência em Como Aproveitar o Fim do Mundo. O resultado é uma excepcional análise de relações humanas que deve encantar até mesmo o espectador mais cético.

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A série acompanha a história de três casais a partir da relação de um deles: Rita e Enzo, vividos por Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch, que se conhecem num bar após encontros mal-sucedidos com pessoas do mesmo aplicativo que sugeria 95% de compatibilidade. Após concluírem que o problema pode estar neles mesmos, ambos decidem que desenvolver um relacionamento pode resolver questões pessoais, daí as ramificações. Colega de apartamento de Enzo, Valdir (Luís Lobianco) vive com a namorada, Brita (num ótimo trabalho de Clarice Falcão) e o casal tem hábitos nudistas — ambos passam 80% da série completamente pelados — e ambos têm sérios problemas quanto a respeitar a privacidade alheia. Já Suzete (Júlia Rabello) é colega de Rita no balcão de informações no supermercado onde ela trabalha e se envolve com Hélio (Rafael Queiroga), colega de trabalho de Enzo numa empresa.

É batido o clichê de abordar relacionamentos usando o viés da tecnologia nos dias de hoje, mas é interessante e especial a forma com a qual Shippados lida com seu humor particular (por vezes denso e crítico) com temas como ansiedade, depressão e complicadas relações familiares, sempre destrinchando ao máximo cada um dos temas.

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O roteiro verborrágico do casal Young-Machado conversa com os dias de hoje e expõe devaneios cotidianos em seus diálogos de maneira divertida e que sempre fazem com que sempre lembremos de já ter pensado algo do tipo. Eduardo Sterblitch compõe a estranheza de seu personagem de uma maneira que se aproxima de um espectro autista, sem sê-lo diretamente. Já Tatá Werneck externa a ansiedade de sua Rita de maneira tão palpável, que seu fofo tique de segurar as sobras da fivela da mochila costuma vir acompanhado de alguma reflexão frenética sobre si ou sobre o ambiente.

O time de coadjuvantes é igualmente apaixonante e os atores conseguem captar as nuances de seus personagens perfeitamente alinhadas com o texto, mas é Yara de Novais na pele da mãe de Rita que serve como um catalisador das emoções da série. Trabalhando como uma espécie de vilã, toda a sua amargura revolta o espectador ao mesmo tempo que é compreensível e a humaniza de forma igualmente sincera.

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A maneira com a qual a internet é introduzida na trama facilita situações de maneira óbvia mas que sempre condizem com a proposta. A direção artística de Patrícia Pedrosa é mais um ponto positivo uma vez que as decisões estéticas imprimem um realismo ao absurdo da série. A trilha sonora frequentemente interrompida de maneira divertida é formada por uma vasta diversidade de gêneros que vai de RubelLos Hermanos e O Terno a MC Loma com uma naturalidade divertida e pouco vista na televisão.

Shippados é um produto divertido e reflexivo que tal como Edifício Paraíso, outro trabalho dos mesmos autores, decide expôr a bizarrice dos costumes humanos e do amor fazendo graça disso com um humor muito característico predominante na carreira de Alexandre e Fernanda. É um presente que merece ser assistido!

10/10

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