Inconsistente e apoteótica, última temporada de “Game of Thrones” decepciona por falta de cuidado

*Atenção: o texto a seguir contém spoilers.

Retornando após um longo hiato de dois anos, a obra máxima da HBO, e — pode-se dizer — o maior fenômeno da televisão mundial retorna para sua última temporada, para o último adeus às figuras que tanto encantaram o telespectador e causaram polêmica e burburinho com sua humanidade sempre em evidência, jogando-os em situações complexas às quais nem sempre as reações eram as mais ortodoxas possíveis.

É importante salientar também que, por ser o último ano da série, iniciada em 2011, este veio carregado por uma expectativa ímpar — completamente necessária e compreensível —, que, infelizmente, não foi correspondida para boa parte do público, decepcionado com a evidente falta de tato dos showrunners.

Conduzida por quatro roteiristas, sendo eles David Nutter, Bryan Cogman e os próprios showrunners David Benioff, e D. B. Weiss, a temporada contou com quatro profissionais na equipe de direção: o aclamado Miguel Sapochnik (da Batalha dos Bastardos) ficou responsável pelas grandes batalhas e eventos da temporada, nos episódios 2 e 5; a David Nutter coube a responsabilidade de dirigir os episódios para estabelecer o clima de tensão pré-conflitos na temporada, e foram estes os de números 1, 2 e 4. Para os manda-chuvas da série, o último episódio.

WINTERFELL

O arco narrativo do último ano da série englobou o desfecho das histórias que tanto conquistaram o mundo inteiro. A temporada se iniciou com a chegada de Daenerys (Emilia Clarke) e seu séquito a Winterfell, causando todo o estranhamento possível. Iniciou-se aí também a rusga entre Daenerys e a lady de Winterfell, Sansa (Sophie Turner).

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Metade da temporada se centrou no Norte, onde os acontecimentos mais esperados se deram. Os dois primeiros episódios estabeleceram a tensão necessária para o grande evento que estava por vir. Mais especificamente no segundo episódio, A Knight of The Seven Kingdoms, tivemos belos momentos que emocionaram bastante, como Brienne (Gwendoline Christie) recebendo o título de Cavaleira, e a canção que Podrick (Daniel Portman) canta, Jenny of Oldstones, numa poética cena que trouxe todo o senso de perigo que a série precisava. A música inclusive recebeu uma linda versão gravada pela banda Florence + the Machine.

THE LONG NIGHT

E chega o grande evento. No terceiro episódio acontece a tão esperada Batalha de Winterfell, e então os problemas da temporada começam a aparecer. Situações inverossímeis como Jon Snow (Kit Harington) — agora Targaryen — tentando vencer o dragão de gelo no grito e Arya (Maisie Williams) surgindo absolutamente do nada para matar o Rei da Noite foram algumas delas. Foi uma pena ver que a tão esperada “chegada do inverno” resultou numa chuva de resoluções rápidas e preguiçosas em um único episódio. E o que falar de Daenerys que foi completamente inútil neste conflito? Ficou voando o tempo todo enquanto o fogo pegava no parquinho. Palmas para a belíssima despedida de Carice van Houten na pele de Melisandre. A personagem foi uma das poucas que teve um final realmente digno de sua personagem. Há que se destacar também a bravura da pequena Lyanna Mormont (Bella Ramsey) que emocionou e fez o público vibrar com sua participação na batalha.

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THE LAST OF THE STARKS

Em mais um episódio de preparação de terreno, verdades são reveladas e a sensação de fim fica cada vez mais próxima. Recuperando os diálogos cheios de significado e toda a tensão inerente, este talvez seja o episódio da temporada mais fiel ao espírito original de Game of Thrones. Aqui temos Daenerys tomando a precipitada decisão de seguir em frente sem descansar seus exércitos e pagando o preço à frente com a perda de mais um dragão e a execução de Missandei (Nathalie Emmanuel) pelas mãos de Cersei Lannister (Lena Headey), que finalmente ganha espaço na trama. Ouça nosso podcast com a análise do episódio aqui.

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THE BELLS

Aqui vemos Daenerys visivelmente abalada e quebrada após os acontecimentos anteriores. Os exércitos finalmente chegam a King’s Landing e aguardam a rendição de Cersei. A cidade se rende, e ainda assim, com sua sede de vingança, Daenerys começa uma das maiores chacinas já vistas na história de toda a série. Num episódio épico e de visual impecável, vemos toda a cidade ser queimada. Homens, mulheres e crianças sofrem o peso da mão torta de justiça de uma tirana Daenerys Targaryen, e então a série se trai, forçando um senso de loucura que, para ser apresentado, exigiria mais tempo e trabalho do roteiro. A sensação que permeia toda a temporada é de que ao invés de seguir todos os caminhos e encruzilhadas de um labirinto, esqueceu da complexidade de seus caminhos e optou por ignorá-los, seguindo uma linha reta e derrubando todas as paredes fortalecidas ao longo de seus oito anos. E o que falar da morte de Cersei e Jaime, que não fizeram de forma alguma jus à jornada dos Lannister que marcaram a fortes tintas o cânone da série?

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THE IRON THRONE

E chega o momento da apoteose. Num episódio relativamente morno, chegamos ao último tomo da série. E é preciso dizer que todos os finais poderiam ter sido extremamente coerentes se tivessem sido melhor trabalhados. Surgem comentários a torto e a direito na internet que dizem que “Game of Thrones não é novela“, ou “Game of Thrones nunca foi previsível“, mas qual a lógica de ser imprevisível e ser incoerente? Ou de ser novela e não saber fechar as lacunas dignamente?

A morte de Daenerys encerrou pobremente o arco da personagem num primeiro ponto, mas torna-se aceitável para que o resto da trama se desenrole. Belíssima a sequência em que Drogon percebe o corpo da mãe sem vida e, num acesso de fúria, derrete o trono de ferro, ainda, a coroação de Sansa — e também de Sophie Turner — num desfecho merecidíssimo da personagem que caiu nas graças do público e conquistou a todos. Para a indignação do público, Bran (Isaac Hempstead Wright), inútil a temporada toda, sentou no trono de ferro. Mas e o discurso de que ele não queria a coroa? Se sabia de tudo, porque insistir num discurso que torna o personagem e suas intenções falsas num certo ponto?

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Chega então o momento de conclusão de toda uma era. Os tropeços de dramaturgia do último ano tornam ele o tomo mais problemático e equivocado da série — fora o copo de Starbucks e as garrafas d’água vazadas no finale. Uma evidente falta que cuidado que não apaga toda a qualidade das temporadas anteriores, mas que torna no mínimo o desfecho inconsistente dado tudo o que era esperado — e por mais que se diga que tudo fica bem quando termina bem, fica o gosto amargo na boca. Ainda assim, qual não foi a felicidade do público em ver os injustiçados da casa Stark finalmente em paz? (ainda que não se saiba por quanto tempo) E quanto a Jon, depois de ser manipulado, e ter sido revelado que ele é um Targaryen — Salvo o fato de que isso não tenha tido a menor relevância a não ser criar um conflito romântico entre o lobo e a mãe dos dragões —, chega ao fim ainda sem saber de nada, mas relativamente bem para aliviar o coração do público. Resta saber se isso é o que o público pedia…

6,5 / 10

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