[Crítica] Coisa Mais Linda

Leve, “Coisa Mais Linda” consegue abordar temas densos e pertinentes com delicadeza e sem didatismo em primeira temporada

Criação de Giuliano Cedroni e Heather Roth, a primeira temporada de “Coisa Mais Linda“, nova produção nacional da Netflix nos apresenta em sete episódios as histórias de quatro mulheres em busca de serem donas de seus próprios destinos, de sua independência, em meio à efervescência do fim dos anos 50. São elas Maria Luiza — com z —, vivida por Maria Casadevall, Thereza (Mel Lisboa), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Adélia (Pathy Dejesus).

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Partindo da premissa de unir as mulheres por suas diferenças, a história consegue fazer pensar ao passo que trata de temas como racismo, machismo e violência doméstica com total sutileza e atenção. Nada está aqui por acaso, e tudo tem a profundidade que merece. A história começa quando Malu decide abrir um clube de Bossa Nova no Rio de Janeiro de 1959 depois de sofrer um golpe do marido, que desaparece. Sozinha na cidade grande e com o filho sendo criado pelos pais em São Paulo, ela se une a Adélia, que busca melhores condições para criar sua filha e quer deixar de ser humilhada por ser doméstica e negra. Unidas ao vozeirão de Lígia, amiga de infância de Malu, e à idealista Thereza, cunhada de Lígia, essas quatro mulheres iniciam uma bela jornada atrás de fazerem suas vozes serem ouvidas.

O elenco aqui dá um show à parte. As quatro protagonistas caem como uma luva em suas personagens e têm o preparo certo para lidar com as cargas emocionais exigidas. Através do excepcional trabalho das gabaritadas atrizes protagonistas, o espectador empatiza facilmente com elas e conduz a uma agradável experiência, mas o show fica por conta de Mel Lisboa, na pele da jornalista feminista Thereza, responsável por uma situação inusitada aqui na série: é a única mulher na redação de uma revista feminina, composta majoritariamente por homens.

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Pathy Dejesus é Adélia.

A direção de arte e musical da série também dão um show à parte, reproduzindo perfeitamente um Rio de Janeiro pra inglês ver que funciona perfeitamente. A qualidade estética se faz presente em absolutamente tudo.

Pontos negativos ficam por conta dos personagens coadjuvantes, que mesmo sendo importantes para a trama, não recebem o tratamento necessário para terem uma jornada coerente, ou até mesmo empática como a das protagonistas. O Chico de Leandro Lima e o Roberto de Gustavo Machado são claros exemplos de personagens importantes e promissores que não recebem a importância necessária, ou mesmo um arco próprio. Na contramão, as ótimas performances de Gustavo Vaz, como o odioso e violento Augusto, e, em especial, os trabalhos sensíveis de Alexandre Cioletti e Ícaro Silva como Nelson e Capitão, respectivamente.

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Mel Lisboa e Alexandre Cioletti em cena como Thereza e Nelson, respectivamente.

Dirigida pelos ascendentes Caito Ortiz (de O Roubo da Taça), Hugo Prata (de Elis) e pela excepcional Júlia Rezende (de Ponte Aérea, Um Namorado Para Minha Mulher e do vindouro De Pernas Pro Ar 3), a série consegue manter o tom do início ao fim, com um pé no folhetim nacional com o qual o brasileiro está muito acostumado, sem descambar para os exageros comuns ao gênero, mérito de seu texto.

A produção tem alguns deméritos, mas não está tão longe da perfeição. Coisa Mais Linda já se firma como o melhor projeto nacional da Netflix e deve ser visto por todos os públicos. A bem-sucedida empreitada joga os holofotes em cima de temas necessários e pertinentes à sociedade e, a seu modo, mostra que não evoluímos tanto como sociedade desde a década de 50 e estimula debates sadios com sua abordagem, e deixa um gancho de arrepiar para uma segunda temporada que merece ser produzida. Realmente, uma coisa linda!

8,5 / 10

 

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