[Crítica] Brutal e incômodo, “O Animal Cordial” é tão bizarro que beira a fantasia

Uma equipe cansada e um chefe à beira de um colapso em seu casamento se esforçam e, com forçado profissionalismo mantém um restaurante funcionando após a hora comum para atender um casal emergente e esnobe — sendo a mulher claramente subjugada — e um manco solitário, contra suas vontades. Eis que uma dupla de assaltantes surge no estabelecimento, que está sendo assaltado pela segunda vez, e, o lugar se torna palco de uma sádica e gráfica matança. Você acha que já viu esse filme, mas o que vos escreve lhe garante: não viu não.

Murilo Benício e Luciana Paes são Inácio e Sara em O Animal Cordial

Rapidamente um twist ocorre na narrativa e um jogo de sadismo e poder se estabelece no meio, que vai se transformando praticamente num açougue, dados os cortes e a quantidade de sangue. Como sugere o título, cada um dos personagens vai, aos poucos, retomando sua forma primitiva mais animalesca.

Os tipos mais curiosos são aqui representados por Inácio (Murilo Benício), Sara (Luciana Paes) e Djair (Irandhir Santos). Murilo, que desfaz rapidamente a imagem do caloroso e divertido Tufão de Avenida Brasil, cria mais e mais tensão à medida que as características sociopáticas de seu personagem vão aflorando.

A diretora Gabriela Amaral faz do jogo de gato e rato uma experiência curiosamente perturbadora, que prende a atenção do espectador e mantém uma atmosfera brutal que faz prender a respiração. A direção de fotografia é precisa e utiliza tanto cortes rápidos quanto o plano-sequência, trabalhando favoravelmente com o roteiro. Uma bizarra sequência de sexo extremamente desconfortável é precisamente bem-dirigida e cumpre com louvor tal propósito.

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Um dos maiores problemas do filme reside na trilha sonora que chega a ser até mesmo inconveniente em alguns momentos, como se ela quisesse forçar o espectador a embarcar na atmosfera da obra, mesmo já o tendo feito. A sequência dos créditos iniciais é um ótimo exemplo do uso da trilha, e a última cena do filme é um claro exemplo de uso desnecessário do recurso. A obra peca um pouco no segundo ato, ao começar a pôr diálogos demasiadamente didáticos na boca de seus personagens, além da perda do fator de mistério que torna o filme tão instigante no primeiro ato.

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O sangue, presente em 90% do filme, é quase um personagem aqui. As cenas de gore e violência do filme são tão sádicas que chegam a ser quase fantasiosas, mérito da direção. Em matéria de sangue e violência, O Animal Cordial não deve em nada aos mais famosos slashers americanizados. A audiência certamente será prejudicada pela censura 18 anos nos cinemas do Brasil.

Ao terceiro ato o filme volta a recuperar sua vitalidade, e encerra num tom quase onírico, que vai deixar o espectador entre um sentimento de desconforto e uma vontade estranha de dar risada. O Animal Cordial é um ótimo título de uma ótima safra de cinema nacional de gênero e deve figurar entre as listas de melhores do ano. Vale lembrar que o filme também é um dos pré-selecionados pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar do ano que vem. Um ótimo filme — com seus defeitos, mas ainda assim, uma experiência cinematográfica que vai fazer o espectador facilmente relacionar a ficção com a brutal realidade de cada dia do nosso país, seja política, econômica, ou socialmente.

7,5 / 10

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Autor: Lucas Felipe

Noveleiro e seriemaníaco, colaborador do “Olar Para Todos”

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