[Crítica] Inspirado e romântico, “Ana e Vitória” retrata com propriedade o amor nos tempos atuais

Falar sobre o amor nos dias de hoje é abrir uma discussão que abrange diversas interpretações, gêneros, números e graus. E é do desenvolvimento dessa incógnita que parte a premissa desta obra cinematográfica no mínimo curiosa. E a comédia romântica musical semibiográfica dirigida por Matheus Souza (dos bons “Confissões de Adolescente” e “Tamo Junto“) com pouco menos de duas horas cumpre o que promete e ainda garante uma diversão repleta de reflexões sobre as relações humanas nos tempos de internet e redes sociais.

Contando a história da dupla das famosas cantoras de pop rural desde seu primeiro encontro, o roteiro flui e se mistura deliciosamente com as canções compostas exclusivamente para o filme (todas com a assinatura de Ana Caetano, uma das vocalistas da dupla). O carisma e o trabalho de atuação naturalista das duas protagonistas (interpretadas pelas verdadeiras Ana Caetano Vitória Falcão) é o fator mais positivo na construção do longa. Vitória, inclusive, é responsável por algumas das cenas mais divertidas do filme, uma personagem repleta de potencial e muito bem explorada. O mesmo acontece com Ana e seus numerosos relacionamentos, sempre em evidência.

Destaque para a cena de abertura, com a música Canção de Hotel, que emociona e dita todo o tom da projeção. Os números musicais são orgânicos dentro do filme, e fazem referências a musicais hollywoodianos como La La Land. A pegada indie biográfica do filme em suas duas horas também deixa a obra mais leve e palatável.

Os relacionamentos mostrados no filme soam reais, e, apesar das caricaturas em alguns personagens secundários, é fácil relacionar aquele amigo ou aquela amiga às situações que vemos aqui. A direção e roteiro de Matheus Souza, escrito em cima das músicas previamente compostas por Ana conversam muito bem. O amor de várias formas visto por uma ótica totalmente liberal e sem preconceitos é uma das coisas mais bonitas recentemente vistas no cinema.

O maior problema do filme reside na construção unidimensional e caricata de alguns coadjuvantes, como Isadora, interpretada por Thati Lopes e o desajeitado Ricardo Guilherme, interpretado pelo youtuber Victor Lamoglia. Já Bryan Ruffo e Clarissa Müller estão seguros e encantam na pele dos interesses românticos das protagonistas. Bruce Gomlevsky não tem muito o que fazer na pele do empresário Felipe Simas, mas está bem quando aparece com suas frases de efeito e conselhos maduros para as jovens.

As várias mensagens digitais aparecendo na tela são um recurso sempre muito bem empregado na tela, além da montagem orgânica do filme e o uso preciso do plano sequência.

Experiência interessante e diferente, “Ana e Vitória” traz um pertinente retrato do amor em tempos de internet e indefinição. Com um tropeço aqui ou ali, é um musical inspirado sem ser piegas que vai te fazer procurar toda a trilha sonora pra ouvir no looping depois.

8 / 10

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Autor: Lucas Felipe

Noveleiro e seriemaníaco, colaborador do “Olar Para Todos”

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