[Crítica] Sensível e bem-feito, “Talvez Uma História de Amor” é cinema nacional de qualidade

E se você se esquecesse do grande amor da sua vida? E se seu cérebro te pregasse uma peça, fazendo com que você esquecesse de tudo que cerca essa pessoa? É com esse argumento, e uma condução original e divertida, que Talvez Uma História de Amor proporciona uma experiência cinematográfica no mínimo interessante.

Mateus Solano dá vida ao publicitário Virgílio, um homem metódico em seus 30 anos que nunca fez nada diferente. Agarrado à sua rotina, ele vê sua vida virar do avesso quando, de repente, uma mensagem deixada em sua secretária eletrônica revela um término de relacionamento. Mas ele nunca conheceu essa mulher.

O filme, dirigido por Rodrigo Bernardo, é uma adaptação do livro homônimo do francês Martin Page. A obra faz de tudo para inserir o espectador no universo do protagonista. Os tiques e vícios de Virgílio nos são apresentados com toda calma, fazendo com que aquela realidade tão absurda do personagem nos pareça simples e banal como qualquer outra. A necessidade de Virgílio de permanecer no mesmo lugar e sua aversão à mudanças são notadas em seu modo de se vestir, em seu celular num modelo extinto há quase duas décadas, na vitrola de seu apartamento, assim como na TV de tubo e no videocassete que ele assiste.

Resultado de imagem para talvez uma história de amor filme 2018
Mateus Solano é Virgílio

O apego de Virgílio à secretária eletrônica que guarda a mensagem da tal Clara, sua suposta ex, é nada mais que um reforço ao medo que ele tem de se jogar em outras coisas, o medo da troca de ares.

Além da direção inspirada, a obra conta também com um elenco altamente estrelado para os padrões nacionais, demonstrando conforto e diversão na pele de seus personagens. Destaque para Marco Luque, hilário na pele do melhor amigo Otávio, e também para Bianca Comparato, divertida dando vida à vizinha surtada Katy, responsável por alguns dos melhores momentos do filme. Isso se deve muito ao carisma e versatilidade de Mateus Solano, que demonstra muita química com todos os personagens e transita muito bem entre o personagem tragicômico e o homem sensível em busca de respostas. A americana Cynthia Nixon, a Miranda de Sex and the City faz uma ponta divertidíssima no trecho final do filme. Thaila Ayala entrega bem, e sua participação é muito agradável ao final.

Resultado de imagem para talvez uma história de amor filme 2018

A fotografia trabalha bem com os tons urbanos e a trilha sonora orna com tudo. Os acordes de Give Me Love, de Ed Sheeran ao subir dos créditos arrepia e complementa uma trilha sonora espetacular que raramente vemos no cinema nacional. Seu maior problema está em ter um terceiro ato corrido e pouco desenvolvido, ao contrário das fases anteriores do filme. Um trecho do roteiro que merecia mais atenção justamente por ser o que junta as peças desse quebra-cabeça e entrega as revelações de que o filme precisa. Embora satisfatório, não espere nenhum desfecho mirabolante, estamos falando de um romance.

Com um clima indie e agradável de “dramédia”, sem medo de usar clichês ou de ser meloso, Talvez Uma História de Amor faz um cinema nacional bem-feito, sensível e de qualidade. Vale muito a pena seu tempo.

8 / 10

Anúncios

Autor: Lucas Felipe

Noveleiro e seriemaníaco, colaborador do “Olar Para Todos”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s