A televisão aberta na era do streaming

A televisão aberta nunca enfrentou uma crise tão grande como nos últimos três anos. Com o fortalecimento cada vez maior do politicamente correto no Brasil, a melhor fonte para conteúdo livre são os serviços de streaming, adaptado para todos os gostos e plataformas.

A partir do fracasso de “Babilônia“, de 2015, a televisão aberta enfrentou grandes quedas de audiência, por parte do conservadorismo do público, e também devido à migração para as obras bíblicas, e a troca das novelas de TV aberta pelas séries de televisão americana. Com essa perda de público, sinopses e rumos de tramas acabaram por ser alteradas na busca de aumentar público, mas apenas acabaram por deformar histórias de enorme potencial, como a já citada “Babilônia”, de Gilberto Braga, e “A Lei do Amor“, de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari. Estes problemas acabaram por ser estancados com a chegada da inovadora trama de Gloria Perez, A Força do Querer.

Isis Valverde em A Força do Querer como a indomável Ritinha.

Com rumos inovadores, como a abordagem sensível e certeira da transexualidade, do vício em jogo e a divertida exploração do cosplay, e cenas catárticas, a novela contou com personagens populares e complexos como a criminosa passional Bibi (Juliana Paes) e a policial lutadora de MMA Jeiza (Paolla Oliveira). A novela cumpriu seu papel de mobilizar o público com seus temas e elevou a média do IBOPE para a casa dos 36 pontos (quase 25 milhões de pessoas) – a telenovela anterior obteve apenas 27 pontos de média. No Recife, o capítulo final de A Força do Querer marcou 60 pontos de audiência, o equivalente a quase 42 milhões de espectadores.

E finalmente chegamos ao propósito deste texto: Qual a diferença entre telenovelas e séries que fazem os espectadores mais jovens rejeitarem o formato?

Com narrativa seriada e pesada, a intensa A Regra do Jogo, de João Emanuel Carneiro, é uma das obras mais preciosas da TV, embora tenha tido baixa audiência.

A maioria dos brasileiros não sabe, mas a telenovela como você conhece hoje passou por várias fases até chegar ao “estilo brasileiro de ser”. Após a ideia ousada de Assis Chateaubriand ao implantar a TV no Brasil, no início da década de 50, quando o rádio era o principal meio de comunicação. essa paixão nacional começou a criar corpo. O formato da novela brasileira foi construído a partir de quatro itens: o folhetim francês do século XIX, radionovelas, melodrama e soap operas.

Como as séries americanas que conhecemos, as telenovelas no Brasil começaram sendo exibidas em dias certos, apenas algumas vezes por semana. A primeira obra diária brasileira, exibida em 1963 foi “2-5499 Ocupado“, na extinta TV Excelsior, estrelada por Glória Menezes e Tarcísio Meira. Na trama, Glória vive a presidiária Emily, que trabalha como telefonista do presídio. Tarcísio vive Larry, que apaixona-se por ela através de um único contato: a sua voz ao telefone, sem saber qual é a real condição em que ela está.

Hoje em dia, a linha que divide mais precisamente uma série de TV de uma novela é o formato de exibição. Com mais episódios que o comum, geralmente entre 100 e 240 capítulos, e com exibição de segunda a sábado, uma novela é mais cansativa e exigente de público. Uma série pode ter entre 10 e 25 episódios dividida em temporadas, e requer menos esforço do público, que pode parar num episódio e continuar algum tempo depois.

Com a promessa de ser uma obra forte e realista, Babilônia mudou seus rumos para tentar conquistar audiência e, desfigurada, terminou como a novela de pior audiência da década.

Geralmente associadas a coisas ruins, as novelas (ou folhetins, melodramas) de hoje em dia são fortes, inteligentes, com trabalhos artísticos dignos de prêmios. Algumas obras até, como Caminho das Índias (de Gloria Perez), O Astro (releitura da obra original de Janete Clair, escrita por Alcides Nogueira) e Verdades Secretas (de Walcyr Carrasco), chegaram a ser premiadas com o Emmy Internacional, na categoria de Melhor Telenovela.

Com exceção de trabalhos como a horrenda O Outro Lado do Paraíso, atualmente no ar, que conquista 45 pontos no Ibope por capítulo, basta boa vontade do telespectador para reconhecer as riquíssimas obras à nossa disposição todos os dias e em diferentes horários na televisão aberta!

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Autor: Lucas Felipe

Noveleiro e seriemaníaco, colaborador do “Olar Para Todos”

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