Orgulho e Paixão: E se Jane Austen fosse brasileira?

Por Lucas Felipe

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Depois de “Deus Salve o Rei”, a Rede Globo optou por estrear mais uma obra ousada no seu catálogo de telenovelas. “Orgulho e Paixão”, trama para o horário das seis de Marcos Bernstein (autor de “Além do Horizonte” e roteirista de “Central do Brasil”), adapta cinco romances da renomada Jane Austen num mesmo universo, no fictício ‘Vale do Café’, são eles: Razão e Sensibilidade (de 1811), Orgulho e Preconceito (de 1813), Emma (de 1815), A Abadia de Northanger (1818), e o epistolar Lady Susan (escrito em 1794 e publicado em 1871).

Não é a primeira vez que a Globo usa o recurso de adaptar vários romances de um mesmo autor numa única obra televisiva. O mesmo aconteceu em 1993 com “Fera Ferida”, de Aguinaldo Silva para as 20 horas, que contou com 210 capítulos e adaptava seis romances do brasileiro Lima Barreto.

“Orgulho e Paixão” tem a trama principal de “Orgulho e Preconceito”, com as cinco irmãs Benedito (no original, as Bennet) que tem a ânsia de se casarem com bons pretendentes, com a exceção de Elisabeta (intepretada por Nathália Dill – Elizabeth, na obra de Austen), que tem o espírito livre e sonhador. Elisabeta descobrirá o amor ao conhecer o antipático e misterioso Darcy Williamson (no original, Fitzwilliam Darcy), com quem protagonizará uma bela e divertida história de amor, mesmo que com o antagonismo de Susana (Alessandra Negrini vive a vilã inspirada na viúva ambiciosa caçadora de pretendentes protagonista de “Lady Susan”).

IMG_4770Das irmãs Bennet, apenas três têm a essência do romance original. São elas Elisabeta, Jane (Pâmela Tomé) e Lídia (Bruna Griphão). As outras duas foram substituídas pelas protagonistas de outros romances: Cecília (Anaju Dorigon – Catherine em “A Abadia de Northanger”, com o nome alterado devido à vilã da atual novela das 19h) e Mariana (Chandelly Braz – Marianne em “Razão e Sensibilidade”). Completando o núcleo principal ainda temos Ema (Agatha Moreira – Emma, no romance homônimo), a casamenteira indecisa que também inspirou a Cher de “As Patricinhas de Beverly Hills” e Julieta, antagonista original criada para a novela vivida por Gabriela Duarte, chamada de Rainha do Café.

Com direção e texto ágeis, a trama tem nomes como Thiago Lacerda (Darcy), Maurício Destri (Camilo – Bingley, no original), Vera Holtz (Ofélia Benedito – Mrs. Bennet, no original) e grande elenco. Tem tudo para marcar o horário das 18h, como fez “Tempo de Amar”, sua antecessora.

Contudo, uma das coisas mais interessantes em “Orgulho e Paixão”, além de ser uma adaptação brasileira de Jane Austen, é seu contexto histórico espetacular, e é sobre isso que conversaremos a seguir!

Ao contrário das obras originais, a novela não se passa no século XIX, e sim, no início do século XX, mais precisamente em meados de 1910. Isso é visto nos detalhes da casa de Julieta, a Rainha do Café (Gabriela Duarte, irrepreensível no papel), que é decorada no estilo Art Nouveau.

Mas qual o contexto histórico de “Orgulho e Paixão”, então? No mundo, as quedas das monarquias, na Europa, as vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

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Darcy Williamson (Thiago Lacerda) e Elisabeta ( Nathália Dill)

No Brasil, a República Velha (ou Primeira República), iniciada com a queda da Monarquia/Império em 1889 indo até 1930 com a revolução/golpe de Getúlio Vargas. Essa república era também conhecida como Política do Café com Leite. É aí que entra “Orgulho e Paixão”.

Por que “café com leite”? Porque o poder era alternado entre Minas Gerais (maior produtor de leite) e São Paulo (maior produtor de café). Na época, o voto para presidente era indireto, e era controlado pelas famílias donas de fazendas dos dois estados.

Nessa época o Brasil era o maior exportador de café do mundo. Em São Paulo, o café era produzido no Vale do Paraíba. Na novela eles chamam a região de “Vale do Café”. Nesse momento, já havia ferrovias no Brasil desde 1860. Porém, foi de 1890 em diante que começaram a expandir essas ferrovias, justamente para escoar a produção de café para os portos de Santos e para o Rio de Janeiro. De lá, navios levavam a produção para Europa e Estados Unidos.

Mas quem trouxe as ferrovias para o Brasil? Os ingleses! Darcy Williamson parece ser uma nova roupagem para Robert Stephenson , engenheiro responsável por apresentar o projeto da São Paulo Railway em 1840. Era a estrada que finalmente a Serra do Mar até Santos.

Darcy, além do personagem homônimo da obra de Austen, é também baseado nos ingleses de 50 anos antes, mas ainda assim faz sentido historicamente, estando ali no “Vale do Café” da trama para expandir a ferrovia.

Ainda assim, “Orgulho e Paixão” utiliza um método um tanto curioso para abordar a escravidão, simplesmente não a aborda, mesmo assim, há a certeza por parte do público de que a família de Camilo Bittencourt poderia, no passado da trama, estar envolvida com a escravidão, pois se Julieta é a Rainha do Café, com certeza ela não ocupou este cargo sendo abolicionista.

É emocionante observar os caminhos que podem se abrir para a trama a partir destes tópicos. “Orgulho e Paixão”, além de uma trama gostosa inspirada nas grandiosas obras de Jane Austen, pode ser uma novela de grande pano de fundo histórico, como foi “Novo Mundo” em 2017. Com aventura, humor e romance, edição ágil, bastante solar e divertida, “Orgulho e Paixão” é uma novela para conquistar e encantar todos os telespectadores!

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Autor: Olar Para Todos

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